CENTRO OBSERVATÓRIO DAS
INSTITUIÇÕES BRASILEIRAS

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Pós-doutorando do COI participa de homenagem a professor de Sociologia da USP

O evento Sergio Miceli: Sociologia dos intelectuais e da cultura foi organizado pelo Centro Europeu de Sociologia e de Ciência Política (CESSP, na sigla em francês), vinculado à Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS, na sigla em francês), à Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e ao Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês); e também pelo programa Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior/Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária com o Brasil (Capes/Cofecub).

Por: Eliete Viana

Sergio Miceli exibe o título de professor emérito da FFLCH – Foto: Beatriz Alves

O professor de Sociologia Sergio Miceli (1945-2025), da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, foi homenageado em Paris, França, no evento intitulado Sergio Miceli: Sociologia dos intelectuais e da cultura, no dia 27 de maio. O pós-doutorando do Centro Observatório das Instituições Brasileiras (COI), João Victor Kosicki, participou da cerimônia, de forma remota, abordando o trabalho editorial de Miceli.

A homenagem começou às 8h e foi até umas 13h (horários de Brasília), sendo dividida em quatro partes: Pensar os intelectuais, A Sociologia de Sergio Miceli, O trabalho coletivo de Sergio Miceli e Editar as Ciências Sociais no Brasil. O evento foi organizado pelo Centro Europeu de Sociologia e de Ciência Política (CESSP, na sigla em francês), vinculado à Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS, na sigla em francês), à Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e ao Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês); e também pelo programa Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior/Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária com o Brasil (Capes/Cofecub).

Sergio Miceli

Miceli foi um sociólogo com ênfase em Sociologia da Cultura, tinha graduação em Ciências Políticas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), com mestrado e doutorado pela FFLCH-USP, e também um doutorado pela EHESS, França. Era docente da FFLCH-USP desde 1989 e, mesmo após a aposentadoria, continuava atuando como professor sênior na Unidade. Em editoras, atuou como membro do conselho editorial na Editora Perspectiva (1971-1974) e consultor-chefe na Editora Abril (1980-1981). Esteve na Secretaria Executiva da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs), (1983-1988); na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) foi membro de comissão e presidente de comitês (1984-1992); e foi diretor-presidente da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), (1994 a 1999), cargo que voltou a exercer do começo de 2022 até o seu falecimento, em dezembro de 2025.

O professor era considerado o principal veiculador do pensamento do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) na sociologia brasileira. Na cerimônia em que recebeu o título de professor emérito, em 4 de novembro de 2022, Miceli lembrou de quando ganhou bolsa de estudos do governo francês para realizar o doutorado e escolheu como orientador Pierre Bourdieu. “O relacionamento com o orientador Pierre Bourdieu, antes do arranque em trajetória meteórica, merece registro pela iniciação provocativa ao ofício de sociólogo, pelo intercâmbio afetivo, pelo apoio à edição da tese em francês, pela aposta no trabalho do único doutorando não europeu. O enlace pessoal repercutia na voltagem da empreitada.” E o CESSP, organizador da homenagem a Miceli, é ligado ao legado teórico de Bourdieu e tem fortes laços de cooperação acadêmica com as ciências sociais no Brasil.

Edusp 

Nesta segunda passagem de Miceli como diretor-presidente da Edusp, ele convidou Kosicki para ser seu assistente, convívio profissional que ele relatou na ocasião através do texto O trabalho editorial de Sergio Miceli em sua segunda passagem na Edusp. No texto, o pós-doutorando do COI, relembrou os primeiros contatos com Miceli, quando o professor participou do 1º Seminário Internacional de Sociologia da Cultura, em 2016, organizado pelo Núcleo de Sociologia da Cultura da USP, capitaneado pelos professores Luiz Carlos Jackson e Fernando Antonio Pinheiro, ambos da FFLCH-USP, e seus alunos, incluindo o próprio Kosicki, que depois Miceli passaria a integrar de 2017 até 2022, “tendo uma participação profundamente ativa no Núcleo, selecionando bibliografias, sugerindo leituras e comentando todos os textos com seu habitual rigor e humor”, frisou Kosicki.

João Victor Kosicki, pós-doutorando do Centro Observatório das Instituições Brasileiras (COI), cujas pesquisas dialogam com sociologia da cultura, literatura e teoria social – Foto: Arquivo Pessoal

O pós-doutorando ressaltou que “embora bastante evidente, a figura do Sergio Miceli enquanto editor ainda é pouco explorada (…) Sua primeira atuação com edição na Editora Perspectiva teve um impacto profundo nas ciências sociais não apenas pela introdução de Bourdieu no Brasil, em 1974, com o livro Economia das Trocas Simbólicas, porém também com edição de uma coletânea de escritos de Marcel Mauss, intitulada Ensaios de Sociologia, uma reunião importante de diversos textos o autor publicado pela editora em 1981, por sua sugestão. Com a sua ida para a França, em 1974, para a realização de seu doutorado Sergio se envolveu também com a criação da revista Actes de la recherche en Science Sociales”. E, algum tempo depois, houve a experiência de criação da Editora Sumaré, editora criada no Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo, ao qual Sergio pertenceu, que publicou livros vinculados aos temas de pesquisa do instituto e trabalhos em ciência política. Porém, para o pós-doutorando do COI, a experiência mais profunda no mundo editorial e de maior impacto no mercado editorial brasileiro é sua primeira passagem  na Edusp.

Kosicki recordou que a Edusp, até 1989, era uma editora que realizava apenas co-edições e, desde então, passou a realizar edições próprias e a constituir um catálogo. E que “a passagem de Sergio consolidou uma reestruturação na editora que possibilitou à editora se tornar uma das mais importantes editoras brasileiras, com edições caprichosas e um catálogo de clássicos enorme”.

Na segunda passagem pela Edusp, a partir de 2022 até seu falecimento, Kosicki destacou que Miceli retoma certa postura de projeto editorial para a Editora e, portanto, além dos originais aceitos, no período entre 2022 e 2025, são 18 títulos publicados diretamente ligados ao seu projeto editorial, como Microcosmo: uma teoria dos campos, de Pierre Bourdieu, e Três Ensaios sobre Estilo, de Erwin Panofsky, entre os clássicos; Os Intelectuais, de Gisèle Sapiro e Sociologia dos Intelectuais, de Louis Pinto, como sugestões de uma sociologia da cultura contemporânea. Além da publicação de quatro títulos clássicos de autores latino-americanos, como Uma Nação para o Deserto Argentino, de Tulio Halperin Donghi, e A Invenção de Nossa América, de Carlos Altamirano.

Kosicki também deu ênfase ao 6º Congresso de História Intelectual da América Latina, organizado em conjunto por Miceli e Maria Arminda do Nascimento Arruda, na época vice-reitora da USP e, atualmente, vice-presidente do COI, o qual foi sediado na USP, em julho de 2023, e contou com mais de 60 mesas e com cerca de 200 pesquisadores de toda a América Latina.

“Creio que seja uma relação interessante a ser melhor explorada no futuro. Eu creio que o projeto intelectual de Sergio Miceli expressa em sua atuação editorial sua feição particular e é possível reconhecer em suas escolhas editoriais, seus gostos pessoais e suas paixões intelectuais”, finalizou.