O impacto das plataformas digitais nos trabalhos de cuidado é tema de ciclo de debates na USP
As discussões são promovidas pelo grupo de pesquisas “As instituições do cuidado e a reprodução da vida cotidiana”, do Centro Observatório das Instituições Brasileiras
Por Eliete Viana
O ciclo de debates Intermediando o cuidado está com inscrições abertas para a sua primeira sessão deste primeiro semestre, que será realizada no dia 8 de abril, quarta-feira, das 10h30 às 12h, com o tema “Novas figuras do trabalho: as plataformas de delivery e seus trabalhadores”, e exposição da professora Cibele Rizek, do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP e também do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
As sessões do ciclo de debates são abertas ao público em geral, no formato híbrido, de forma presencial e virtual. Para participar presencialmente, basta comparecer na sede do Centro Observatório das Instituições Brasileiras (COI) da USP, localizado na sala 5 do 3º andar do Centro de Difusão Internacional, na Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 310, Bloco A, no campus do bairro do Butantã. Para a participação virtual, é necessário fazer inscrição prévia por este formulário. As pessoas inscritas receberão o link de acesso à sala virtual um dia antes de cada sessão. E quem for acompanhar as sessões pode ler previamente os textos de apoio às discussões pelo link.
Durante este semestre serão realizadas mais duas sessões, sempre na segunda quarta-feira do mês e no mesmo horário. Em maio, no dia 13, a discussão será sobre as “Plataformas de trabalho doméstico: uma comparação Brasil – Estados Unidos” e, no mês seguinte, no dia 10, a temática será “Intermediando o trabalho sexual”.
Dedicado à intermediação do trabalho remunerado, este ciclo de debates é promovido pelo grupo de pesquisas “As instituições do cuidado e a reprodução da vida cotidiana”, do COI-USP, com organização da professora Nadya Araujo Guimarães, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), e de Marcel Maia, pós-doutorando do Centro. “A intermediação se refere ao serviço de promover o encontro entre quem demanda trabalho de cuidado e quem oferta este trabalho no mercado. Este encontro nem sempre acontece facilmente. As agências de trabalho são as prestadoras mais tradicionais deste serviço de intermediação, selecionando babás, cuidadoras de idosos, cozinheiras, faxineiras e outras profissionais, e encaminhando-as para famílias e organizações. Porém, as plataformas digitais têm despontado neste cenário, e elas surgem com força”, explica Maia.
A professora Nadya, que também é coordenadora do grupo de pesquisas, complementa: “a intermediação digital do trabalho altera substancialmente o contexto em que faxineiras, diaristas, babás e cuidadoras procuram trabalho. Ela demanda novas competências. Há que estar preparada para uma interação que deixa de ser face a face, como na antiga agência de empregos, ou quando uma “patroa” encaminhava alguém para uma amiga. Agora se requer maior conhecimento formal, há que dispor de um meio digital para os contatos (um celular com créditos, por exemplo) e estar habilitada para o manejo das ferramentas do mundo digital. Há que saber descrever as suas competências e vantagens comparativas num texto certeiro, escrito na forma de uma “minibio”; há que saber negociar as condições de trabalho, atenta ao formato desafiador dos websites das plataformas; bem como há que estar preparada para lidar com as regras de monetização do serviço intermediado – só para apontar alguns desses novos desafios que os nossos debates estarão tomando em conta, ao longo do semestre, nas várias sessões do ciclo.”
Trabalho de cuidado
Múltiplas são as formas, os contextos e os destinatários do trabalho de cuidado. Nele se compreendem, por exemplo, aquelas atividades que têm como beneficiários diretos as pessoas que com frequência denominamos como “vulneráveis” dada a sua reduzida autonomia para prover algumas, ou várias, das suas necessidades: crianças menores, idoso/as dependentes, enfermo/as, pessoas com necessidades especiais. Mas pode-se reconhecer o cuidado sendo indiretamente prestando nas atividades que asseguram, por exemplo, o bom funcionamento das casas e o bem-estar das famílias, incluindo a preparação de refeições, as compras, a limpeza, a organização das finanças domésticas, entre outros.
Todas essas atividades são quase exclusivamente desempenhadas por mulheres, como enfatiza a professora Nadya, “no âmbito familiar, valores e hierarquias sociais terminam por estabelecer quem deve preferencialmente prestar cuidado. Desse modo, sobre os ombros das mulheres (de todas as idades) acaba por recair o pesado ônus de fazê-lo, em nome de uma “obrigação moral” ou de uma “capacidade inata”, que dispensa remuneração. Também em organizações, como hospitais e escolas, onde a remuneração é um fator determinante, as mulheres aparecem em números expressivos no trabalho de cuidado; esses números são tanto maiores quanto menor o prestígio, o poder e a remuneração da ocupação ali desempenhada. Se negras, essa presença se expande, tornando-se dominante quando o cuidado remunerado se presta no âmbito dos domicílios. Assim, a relação entre gênero, raça e trabalho é central nas pesquisas sobre o cuidado”.
No segundo semestre do ano passado, de agosto a novembro, o grupo de pesquisas realizou um ciclo de debates com a temática geral Novos modelos de firmas, no campo do cuidado, que estão disponíveis pelo canal do COI-USP no YouTube.
“Em 2025, realizamos um primeiro ciclo de discussões tratando dos novos modelos de firmas que atuam no cuidado. Abordamos, por exemplo, os desafios regulatórios e a arquitetura dos negócios. Já neste ciclo de 2026, a ideia é compreender de que modo as plataformas, esse novo modelo de firma, atuando no segmento, realizam a intermediação dos serviços de cuidado, ligando quem procura trabalho e quem pretende contratar pessoas. Sabemos, por exemplo, que elas têm diferentes estratégias para atrair trabalhadoras e capturar valor; e que, de outro lado, as trabalhadoras, também têm motivações e táticas para aderir a esta ou àquela plataforma e para transitar entre diferentes tipos de trabalho. Neste semestre, teremos a oportunidade de debater estas questões a partir de dados concretos, de primeiríssima mão, que estarão sendo analisados por pesquisadore/as reconhecido/as”, comenta Maia sobre a coerência da agenda dos debates promovidos pelo Centro da USP.
Programação:
Sessão 1 – 8 de abril
Novas figuras do trabalho: as plataformas de delivery e seus trabalhadores – Expositora: Dra. Cibele Rizek (IAU-USP/PPGS-UFSCar)
Sessão 2 – 13 de maio
Plataformas de trabalho doméstico: uma comparação Brasil – Estados Unidos – Expositora: Dra. Claudia Rebechi (UTFPR)
Sessão 3 – 10 de junho
Intermediando o trabalho sexual – Expositores: Cinthya Bastos Ferreira (PPGS/Unicamp), Gustavo Carneiro (PPGS/UFSCar); e Julia Rodrigues (PPGS/USP)
Novas figuras do trabalho: as plataformas de delivery e seus trabalhadores
Data: 8 de abril, quarta-feira
Horário: das 10h30 às 12h
Local: Sala 5 do 3º andar do Centro de Difusão Internacional, localizado na Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 310, Bloco A (em frente à Escola de Comunicações e Artes – ECA) – no campus do bairro do Butantã
Participação virtual: preencher o formulário de inscrição
Entrada gratuita
Mais informações: coi@usp.br
Acesso aos textos de discussão nas sessões pelo drive do COI-USP.
+55 (11) 2648-0205 | coi@usp.br
São Paulo – SP – 05508-220
+55 (11) 2648-0205 | coi@usp.br
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Professor Titular e Livre-Docente, aposent
ado, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – USP e Ministro, aposentado, do Supremo Tribunal Federal – STF e do Tribunal Superior Eleitoral – TSE. Possui graduação em Ciências Políticas e Sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1971), graduação em Direito pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo (1973), mestrado em Relações Internacionais – Tufts University/Havard (1981), mestrado e doutorado em Direito pela USP (1980/1981). Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Público, atuando principalmente nos seguintes temas: direitos humanos, interpretação constitucional, separação de poderes, reforma do judiciário, mercosul, soberania e democracia. (Fonte: Currículo Lattes)